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São Paulo, 19 de Agosto de 2019
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A Lágrima do Adeus

Foi uma casualidade encontrá-lo ali. Aquele rosto, aquele sorriso, o tradicional óculos na ponta do nariz. Tudo permanecia igual. Era impossível não reconhecê-lo.

Foi num café no centro da cidade que o encontrei. E quem diria que neste mundo tão grande voltaríamos a nos esbarrar. Fazia mais de dez anos que não nos víamos. A última vez fora de relance, no metrô. Naquele zumzumzum do horário de pico, na estação da Sé. Nem tempo para um oi tivemos, bastaram segundos para que fossemos arrastados para o vagão.

Ele, hoje, estava diferente. Aparentava estar um homem feito, seus olhos não transpareciam as costumeiras preocupações que permeavam meus pensamentos. As contas, o trabalho, a esposa, os filhos, o futuro; tudo para ele parecia neutro, tudo aquilo que me afligia parecia não preocupá-lo. Queria saber como estava? Se seus planos haviam se concretizado? Se a namorada da época escolar, tornara-se sua esposa? Se os devaneios que fazíamos naquele tempo haviam se tornado realidade.

A cara sisuda, que se espera de alguém em uma segunda feira de manhã, nele parecia ausente. Transparecia ser um homem estável, com o futuro já ganho; totalmente planejado. Os maços de papéis em minhas mãos, nele não se faziam presentes, restringiam-se a pequena maleta que trazia consigo. Suas vestes, já indicavam grande porte. Um tradicional executivo, supunha. A xícara, em suas mãos, levava o café expresso à boca. A hora parecia não importar-lhe. Diria até que aparentava não viver mais na agitada metrópole paulista.

Tantos anos na mesma sala de aula. Seria impossível que não me reconhecesse. Éramos quase que irmãos, unha e carne, fosse para o bem ou para o mal. Naquele momento ele limpava os lábios com o guardanapo, sob o qual estava a xícara de café expresso. Olhava para o televisor, via as notícias da manhã, e como se fosse de praxe chamava o atendente para trazer-lhe um tradicional pão na chapa.

Olhava intrigado, na dúvida de ir ou não ir. Na exaustiva indecisão optei pela primeira opção, receoso de que não relembrasse de mim.

E para minha surpresa, aquela fora uma belíssima conversa. Um baú de lembranças do passado. Ele me reconheceu de pronto. Contou que hoje era empresário de uma grande empresa. Não tivera mulher nem filhos, o trabalho lhe consumira seus melhores anos. Dizia-se feliz, pois apesar da dureza da vida conseguira vencê-la; lutar pela estabilidade que sentiria a partir do dia de hoje. Era seu primeiro dia como aposentado. Os anos de trabalho, finalmente, valeriam a pena. Chegava a hora de realizar tudo o que na infância planejara. Os sonhos, as viagens, quem sabe morar no exterior; ou, então, uma vida no campo; uma casa de praia; reencontrar os amigos. Eram tantos planos que passavam em sua cabeça que havia decidido se despedir do local que durante os últimos 20 anos tomava seu tradicional café com pão na chapa. Sorridente, dizia-se completo e pronto para viver a vida como sempre imaginou.

Olhava o relógio aflito. Estava no meu horário. Ele me deu um abraço e na despedida um cartão. Vamos marcar um jantar. Relembrar dos velhos tempos, dizia dando uma risada. Falava ainda:

- Agora terei tempo para receber os amigos. Não haverá mais o trabalho para me atormentar.

Saía feliz do estabelecimento. Eram raros momentos como aquele. Guardei o cartão na carteira, a fim de marcar o combinado o mais breve possível.

Uma semana se passou e resolvi ligar para acertarmos uma visita. Seria ótimo revê-lo. Após discar os números, uma mulher me atendia. Supunha ser sua namorada, quem sabe tivesse recuperado o tempo perdido:

- Alô?! ? dizia a voz feminina.

- Alô?! Poderia falar com o doutor José Carlos

- Ah o senhor não soube... Ele faleceu.

- Mas como? Vi-lo semana passada mesmo. Estava tão bem.

- Semana passada, após sair de um barzinho no centro, uma carreta desgovernada o atingiu. Nada adiantou. Segundo os médicos, quando a ambulância chegou, ele já havia expirado.

Fiquei sem reação. Agradeci e desliguei o telefone.

Chego à conclusão de que a vida é uma caixa de surpresas. Passamos anos correndo atrás de uma situação confortável, do dinheiro, da estabilidade, do status, para a partir daí começarmos a viver. Esquecemos que a existência é um teatro sem ensaio, um salto no escuro em que cada segundo, deve ser preservado ao máximo, quem sabe até eternizado, para que ao fim possamos sair em débito desta que pode ser nossa maior aliada como também é nossa maior inimiga: a vida.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, anunciando a triste sensação do adeus!


Vinícius Bernardes Mondin Guidio
(vguidio@ig.com.br)

Vinícius Bernardes Mondin Guidio - tem 15 anos, é estudante, adora ler e escrever, gosta de português, literatura e tudo o que é relacionado a área de humanas.

Escreve crônicas para o jornal Gazeta do Belém e também adora observar o cotidiano e as gafes alheias, para depois relatá-las em seus textos.

Contato: vguidio@ig.com.br

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